Uma experiência em... Dança? por Paula Frassinetti Sampaio¹ PDF Imprimir E-mail
Escrito por Alexandre   
Seg, 27 de Junho de 2011 22:19



Na época em que começou o curso de dança eu tinha dado início, recentemente, a um pensamento sobre o corpo. Tinha cursado ‘oficina de dança’ na Universidade e participado de um laboratório de dança com a Etc., companhia de dança de Recife, durante uma semana. Foi o início para despertar uma dança que produz significado, que questiona o corpo, que é arte e não uma máquina ilustrativa. Foi nesse ínterim que surgiu o curso Acupe – Formação do Bailarino-Intérprete Pesquisador em Dança, projeto realizado pela Fundarpe, sob coordenação de Paulo Henrique, Bailarino Educador Intérprete Pesquisador e Produtor em Dança! No primeiro dia de aula tive Danças Populares, especificamente o Cavalo Marinho no dia. Pedro Salustiano, o professor, não apenas dança, mas brinca o cavalo marinho, desde criança e hoje na Casa da Rabeca.
 

A técnica em sua origem não é algo frio, isolado e mecânico, apesar de poder se tornar tudo isso quando a intenção não é dotada de verdade ou quando não muito definida. Pedro e Imaculada Salustiano (sua irmã que também nos deu aula) trouxeram para sala de aula conhecimentos que vão além da técnica, o lado do brincante, do jogo que é passado pelas gerações, as canções, as toadas, a energia desafiante do mergulhão , a consciência da força nas pernas, os joelhos flexionados, o fluxo do caboclinho, o pé batido no chão, suor e sorrisos. Não é uma questão apenas de executar passos, mas de se dispor à experiência viva, da verdade cultural de situações diversas. Experiência é posse, você viveu e se apropria. Percorremos no corpo vivências múltiplas acerca do universo da dança. Técnicas dos Balés Clássico e Popular, recortes sobre anatomia e linguagens que atravessam a dança como teatro, música, contato e improvisação, demonstração de trabalho. Sendo este a etapa última(?) do curso, a produção de um espetáculo de dança. Uma cena múltipla, a organização corporal das pesquisas da turma, em diálogo. Durante o curso, houve apreensão de técnicas, de teorias e dos indivíduos. Sucessões de encontros: entre nós e os professores, com as discussões, aprendizagens e entre as pessoas, continuamente, simultaneamente. Acredito que cada aluno ali deu várias voltas dentro de si mesmo, como um campo arado, um corpo que foi sacudido, remexido e misturado diante da oferta de fluidos conceitos, a diversidade - um campo fértil. Bailarinos clássicos construindo e cambiando com os de formação da dança popular, do sapateado e do circo, do teatro e também as artes visuais, unidos por uma sede pelo desconhecido, pesquisando como se sente o próprio corpo, a arte, a dança e a pesquisa desta linguagem.
 

Quem nunca dançou não existe. O Ser possui um corpo, e este uma experiência material de fluxo, espaço, peso e tempo. No mínimo recebeu da mãe quando recém nascido aquele balancinho de ninar, que perdura na memória corporal (vide noites de chuva antes de o sono chegar). Mas não disse que isso é dança. Trata-se mesmo dessa moleza malemolente que apreendi durante o ninar. E como criar a partir dos signos memorizados pelo corpo? Ou será que para dançar será necessário que liguem os cronômetros, contem os saltos e julguem a definição de um plié ?
 

Klauss Vianna, bailarino e coreógrafo brasileiro, no livro A Dança, diz que “a inconsciência é que gera a mediocridade”. Ou seja, quanto menos se tem consciência do espaço que ocupa, da intensidade do próprio peso, a duração das situações e o fluxo, o modo como acontece, mais chance o indivíduo tem de produzir algo menor do que seu potencial permitiria, pois não estimula uma percepção crítica sobre si mesmo. E esse “estar consciente” não é aplicável apenas numa idéia de ‘consciência corporal’ (essa nova eco conscientização global pró-saúde), mas relaciona-se a experiências numa noção mais ampla, no que tange a produção de um modo geral.
 

O que se produz e por quê? O quanto eu (eu artista/produtor/criador) acredito nos signos que estou articulando como verdade? No corpo, na arte, na crítica, nas instituições, nas redes que definem, moldam e produzem espaços. Como reconhecer o próprio espaço, atuando nele e lidando com intervenções externas? Pensar isso é discutir também o lugar da arte, transitar por solúveis fronteiras classificatórias e experimentar novos espaços, se colocando de outras formas para que, através de diferentes meios e novos trânsitos, possamos ativar um dos super poderes da arte: agregar.
 

Tudo pode ser objeto da arte, assim como o nada, que também é alguma coisa, um ponto, uma opção. E como existem vários pontos, infinitos, já que um ponto é na verdade a união de vários outros pontos, cabe na arte a rede de encontros, pontos de produção humana que se cruzam em suas pertinências e explosões. Os cruzamentos do fazer artístico atravessam não só as camadas mais reflexivas que essa discussão pode construir, mas também os impasses mais “terrenos” da viabilização burocrática da arte. Qual a distinção de um curta metragem para uma videoarte e para videodança? De um texto crítico para o literário? E a performance – das artes visuais, da dança, do circo ou do teatro? Como racionalizar o contemporâneo? Em pleno fluxo de acontecimentos, de produções e crises do momento presente, é pretensão ou tolice tentar classificar, engessar os campos de ação. Entre a pretensão e a tolice, render-me parece ser mais favorável. Redenção à experiência, na urgência de viver, solucionar ou articular novas questões sobre o que me é possível produzir, multiplicar e modificar.
 

“A percepção de corpo em fluxo permanente de transformação e agindo num processo de construção de diferenças traz como questão que aquilo a que se denomina corpo é sempre um estado provisório de negociações com o que habitualmente se denomina de mundo interno e externo, e que atua de modo circunstancial. Não há um resultado único nem último.”(SETENTA. Sobreira, Jussara. o fazer-dizer do corpo – dança e performatividade, p.39) Eu sou um cruzamento, ponto transeunte de distintas encruzilhadas, arrastando memórias, engolindo o futuro e amarrando elásticos que demarcam temporariamente o espaço do agora. É possível decidir entre perceber a rede e estudá-la ou passivamente a compor, sem muitas interferências ou transformações. O que texturiza o caminho é a intenção.



1. Graduanda em Artes Visuais UFPE.
2. Mergulhão éuma dança, um momento que faz arte do início da brincadeira do Cavalo Marinho, em que os participantes se dispõem em circulo e desafiam uns aos outroscom as movimentações.


Última atualização em Ter, 02 de Agosto de 2011 16:38