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 Gas Mask (2008), uma das obras de Joshua Hoffine
Onde os monstros do século XIX metaforizaram a subjetividade moderna em um elemento de equilíbrio entre interno/externo, feminino/masculino, corpo/mente, nativo/estrangeiro, proletário/aristrocáta, a monstruosidade no filme de terror pós-moderno encontra seu lugar no que Baudrillard chamou de ‘visibilidade imdediata’ e o que Linda Willians traduziu como ‘o frenezi do visível'."
Judith Halberstam (2000)
As manifestações artísticas atuais do estilo gótico, inspiradas na própria sociedade — caracterizada por suas deformações morais e psicosociais; suas desconfigurações e fragmentações; e um enorme abismo cultural e social — relatam e expressam a gritante hipocrisia de uma sociedade moralista, que aponta o dedo ao primeiro sinal de erro; uma sociedade de indivíduos que fazem uso deste mesmo dedo, quando confortavelmente sentados diante da televisão, e sentindo-se donos do mundo com seus controles na mão, escolhem assistir cenas e relatos horrendos de violência reais, transmitidos pelo jornalismo sensacionalista, que tornou-se o exemplo de exploração da miséria alheia.
Ao afirmar que todas estas caraterísticas sociais dão origem à um imaginário coletivo povoado por medos — que passam a guiar os caminhos a serem trilhados à partir de então — vemos esse imaginário interiorizado pelo indivíduo a tal ponto que ele já não identifica seus medos e angústias como adquiridos. O imaginário do medo então, estende o gótico até as manifestações da própria sociedade: nas atitudes individuais, nas ações governamentais, e na violência propagada pela mídia. Uma enorme parte do que envolve nossa existência, hoje, encontra-se impregnado de uma imoralidade expressa pelo mundano, de ameaças invisíveis, e de uma não-permanência que se fixa como um sentimento de perda. São estes sentimentos que alimentam a produção artística, incomodando e ao mesmo tempo inspirando. Modificando-se e influenciando-se mutuamente, a sociedade e a arte são espelhos; onde a arte, se revela um importante elemento de estudo na história social e psicosocial.
A abordagem de analogias entre as manifestações góticas na literatura, na pintura, na fotografia e no cinema, atravessando, ainda, o tempo em seus contextos históricos, requer uma abrangência que alcance até mesmo aquilo que se encontra fora de definição. Em seu caráter tão amplo e diverso, a arte tornou qualquer tentativa de categorizá-la obsoleta. Cabe-nos, então, a liberdade de analisar a arte — em suas diversas facetas — como um elemento originado de, e ao mesmo tempo criador de uma sociedade. Sem a necessidade da refutação à outros argumentos, o caminho se torna mais livre à uma visão atual.
No decorrer do texto, acompanharemos o desenvolvimento desse imaginário através do tempo até suas representações em filmes de nossa contemporaneidade, a saber, A Cela (2000), passando antes por A Metamorfose, de Kafka, e Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de R.L. Stevenson, até chegarmos às fotografias de horror de Joshua Hoffine, esse artista comtemporâneo que manipula arquétipos junguianos procurando reinventá-los e pensa nas suas obras como “pedaços de doce”.
 Série After Dark, My Sweet (2008): Candy de Joshua Hoffine
O Belo não Tem Significado
Percorrendo toda a linha do tempo entre a Idade Média até a atualidade, vemos uma constante que se mostra na presença do medo, ora simbolizado por figuras grotescas e transfiguradas, demônios, deuses irados e cenas fantasiosas influenciadas pela Igreja Católica; e ora os vemos expressos por um realismo exagerado de imagens e narrativas impregnadas de violência e incostância; de figuras que também apresentam deformações, mas já não físicas, e sim deformações psicosociais, expressas em mentes destruídas por uma sociedade de valores perdidos, que banaliza a violência.
Entre estes dois extremos, encontramos ainda, uma expressão gótica que se põe entre a fantasia e a realidade, que manifesta não só o próprio conflito da arte de então como o conflito da Londres vitoriana, que em meio ao processo de industrialização e simultâneo desenvolvimento científico do final do século XIX, configura-se à partir de um racionalismo que substitui o antigo ideal imaginário. Nesta Londres, o medo é um elemento constante assim como a violência de uma grande cidade; mas as novas descobertas da ciência que espalham a idéia de uma dualidade do indivíduo — a existência de um corpo separado do espírito — geram uma sensação de magia no cidadão comum. Este conflito é expresso na arte por monstros humanóides ou humanos monstruosos; pela magia que mais se assemelha à ciência; e por uma temática narrativa e visual, que confunde corpo e espírito, realidade e fantasia.
O gótico não vê razão nem inspiração na representação do belo — expressão de significação tão efêmera quanto o tempo ao qual está relacionada — mas ao contrário, enxerga o belo tão desprovido de significados em sua relevância para a expressão artística, que direciona sua atenção ao grotesco, ao crime, ao imoral. Em lugar de uma organização e clareza visuais e narrativas, emprega um excesso de significados, elementos, sentimentos e sensações. Ora representados com sarcasmo, ora intencionados em provocar o horror puro; em suas diversas expressões, o obscuro e o sombrio estão sempre presentes.
Penetrando tudo aquilo que é suprimido e proibido, o gótico está diretamente ligado a transgressão. Glennys Byron (1999) explica esta ligação ao escrever que “não apenas as narrativas em si, ao atravessarem os limites da realidade, transgridem, como a transgressão em si é o foco central nos temas góticos: onde todas as barreiras são derrubadas, todos os segredos penetrados.” Curiosamente, a transgressão mostra-se em seus diversos momentos da história, na duplicidade do indivíduo; no desejo de fugir de sí mesmo, de não pertencer à seu corpo, de não pertencer à sua própria realidade. E mais importante, de não pertencer a uma sociedade, vendo-se então livre dos encargos atribuídos por esta à moral e ao dever do espírito.
 Série After Dark, My Sweet (2008): Refrigerator
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