Editora Panorama Crítico - 2009
ISSN:1984-624x
"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." 2
Objetos em ruína como fósseis de lagartixa ou de cavalo-marinho, fotografias e cartas de família, fotos de viagens, imagens digitais e analógicas diversas, folhas soltas de desenho/anotação, trabalhos em andamento ou não-concluídos. Todo esse material costuma estar inserido em gavetas e armários do meu ateliê, ou então, arquivados digitalmente em meu blog ou em pastas de organização difusa no computador, dividindo espaço com registros pessoais nem sempre relevantes para se pensar o meu processo artístico. Esses documentos compõem uma ampla coleção, a que posso chamar documentos de trabalho. Cabe ressaltar que, antes de cursar a disciplina Documentos de Trabalho, no PPGAVI/UFRGS, ministrada pelo Prof. Dr. Flávio Gonçalves, da qual resulta este ensaio, eu ainda não havia sistematizado esse material, de modo que era bastante difícil revisitar esses documentos sem deixar de reviver momentos de minha vida pessoal, que nem sempre tinham relação direta com o trabalho artístico. Tal problema foi resolvido com a aquisição de uma mapoteca e com a criação de uma pasta no computador específica para esses arquivos, denominada documentos_de_trabalho. É deste material que parto para escrever este texto.
A análise dos documentos de trabalho3, durante a reflexão sobre o seu próprio processo, permite aos artistas acessar o seu repertório singular que não só funda como é fundado pela prática poética. Trata-se de uma força motriz, uma espécie de alavanca do processo de trabalho. Por outro lado, quando o artista se coloca a analisar apenas as suas obras já finalizadas, as questões que fundamentam o processo e que geram de fato o trabalho podem camuflar-se em meio a leituras habituais e viciadas do campo da arte, como se houvesse um ponto cego, o qual não se consegue encarar de frente. O documento está cara a cara com o artista, mas, inserido na periferia do olhar, mantém-se difuso, escapando-lhe do foco. Uma possível alegoria dos documentos de trabalho poderia ser a imagem abaixo, em que os resíduos opacos e resistentes do vidro, supostamente transparente, se impõem à imagem do ciclista. Ainda assim, ao observar a imagem, procuramos desviar desses pontos opacos, que deformam abruptamente o que se projeta para fora do vidro. Nesse sentido, procuramos eliminar esses pontos, lançando os olhos a contornar o referente fotografado, nesse caso, o ciclista de grande chapéu que carrega algo negro nas costas que toma uma forma circular. Ou então, podemos ainda focar os olhos somente sobre esses detalhes opacos, perdendo a relação com o todo da imagem. A película entre a câmera fotográfica e o objeto capturado é resistente. O vidro interfere e fere a imagem, assim como os documentos (inter)ferem (n)o trabalho.

Documento de trabalho 1: Fotografia de registro da viagem ao Chuí.
Foto tirada de dentro do carro.
Às vezes, durante o processo, desviamos muito do que de fato é o mais potente no trabalho. Há um grande desperdício de energia. Descobrir a força motriz, o núcleo gerador do trabalho, lapidando vagarosamente a obra é uma tarefa árdua. Exige tempo e esforço. Há um belo trecho de RILKE, em que ele escreve sobre esse tempo de maturação do trabalho, este se segue abaixo:
Deixar amadurecer inteiramente[...] e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade: só isto é viver artisticamente na compreensão e na criação. O tempo não serve de medida – ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva. Aprendo diariamente: a paciência é tudo.4
Com a observação dos meus documentos de trabalho, espero poder elucidar o modo como o meu olhar captura a presa, buscando as frestas que levam-me para perto dos objetos de desejo. Tal atividade aproxima-se da construção de uma cartografia, em que, nesse terreno de memórias, vamos demarcando o campo, impondo limites, para daí então escolher as sementes adequadas ao solo, sem forçar barreiras, procurando manter uma autenticidade. Quando o chão ganha substância, fica mais fácil falar do trabalho sem reduzi-lo a uma única obra ou a referências diretas da história da arte.
As imagens fotográficas abaixo, capturadas em uma das minhas caminhadas pela cidade de Porto Alegre, constituem-se em um importante documento de trabalho pelo fato de registrarem a força de um excesso gráfico. Preto no branco, repetidamente. São tantas as palavras que as mensagens mantêm-se encobertas. Há um embaralhamento do olhar, este perde-se na textura. Diversos cartazes carregam mensagens equivalentes. Redundâncias. O preto no branco, em uma seqüência de ritmo constante, tornar-se cinza.

Documento de trabalho 2 : object trouvé do desenho como escrita
Por vezes, esses elementos gráficos são colados em sobreposição. Não há uma única folha igual. Aproximando-se desses cartazes, é possível perceber as diferenças de natureza dos papéis, os tons diversos de branco e até mesmo as cores residuais manchadas de suportes anteriores. Elas transparecem nos papéis após a aglutinação da cola, numa espécie de fusão entre linha e mancha, dois procedimentos básicos do desenho. O olhar, ao percorrer esse espaço, desenha.

Aproximando-se ainda mais, é possível perceber as falhas da caneta preta, as oscilações do gesto caligráfico e a diferença de tamanhos das letras. Os intervalos brancos produzem entrelinhas que, por sua vez, diferenciam os blocos. Por outro lado, frestas escuras compõem as fronteiras de um cartaz a outro, delimitam os campos. Elas funcionam como linhas negras verticais que, em ângulo reto, sugerem labirintos. Quando essas margens aumentam, revelam as janelas de vidro presentes por trás do texto. Então, outra paisagem é introjetada nessa textura a partir do reflexo, revelando um contexto mais amplo. Diante do vidro, há pequenas silhuetas de homens em fluxo constante a entrar e sair da imagem, dividida abruptamente por outro intervalo negro: um tronco de árvore sombrio e bifurcado. Desta vez, a paisagem urbana em movimento funde-se à trama. Curiosamente, trata-se de um ponto de ônibus a ser refletido na janela. Tudo parece ser sugado por essa estrutura. A paisagem interna do bar, o texto e a paisagem externa. Janelas e portas são um fluxo de passagem, enquanto o texto é justamente o que está no meio, uma espécie de pele texturada. Ele é constantemente permeado, sem deixar de se impor ao olhar do transeunte. O texto de modo algum é neutro.
É surpreendente como, ao falar deste documento, pareço trazer à tona muitos dos elementos do meu próprio trabalho. Instalações de desenho como "Delineamentos do Cotidiano" ou "Nas entrelinhas do diário" estão profundamente imbricadas nessa trama de relações apontadas acima.5 Mesmo o esboço inicial deste ensaio (imagem abaixo) indicia o modo de organização do meu pensamento gráfico e sua semelhança com o documento anterior.
Há ainda lembranças que também revelam os focos de interesse do meu olhar. Abaixo busco rememorar e atualizar (conceito tão caro a Walter Benjamin) uma importante cena, em que reflexos em vidros, sombras de silhuetas, imagens em movimento, linhas sinuosas e os limites e interferências entre o interno e o externo aparecem com força e apresentam-se como elementos recorrentes em meus documentos de trabalho:
Cercada pelas janelas desse grande aquário móvel, que insistimos em chamar de carro, encontro-me absorta na escuridão da noite. Percebo então que, entre mim e o céu, não há apenas a brisa agradável e úmida que sopra sem força em meados de abril. Existem os vidros. Dizem que as vidraças não atrapalham a visão. Eu não acredito no que eles dizem. Para mim, certos vidros vendam-nos mais do que muitas persianas. Sentada no meu carro, admiro, por um instante, as estrelas. Pouco a pouco, percebo que são apenas reflexos artificiais no pára-brisa. Um momento de desilusão. De longe, avisto um carreto e a figura frágil de um menino. O corpo sombrio e delgado move-se feroz e sinuosamente, levando um pequeno mundo - o carreto - nas costas. Quase um não-corpo a comprovar sua existência. Por um instante, pensei avistar uma marionete. E, então, sinto fincar na alma o grande vidro que me separa daquele menino. Por vezes, a vida petrificada se confunde com o concreto frio da cidade deserta.
Minha produção artística se alimenta intensamente desses documentos. Oscilo entre fazer uso direto deles (abusar desses objetos) e contemplá-los a certa distância, procurando reorganizá-los e presentificá-los na minha obra. Caminhadas me ajudam a encontrá-los, organizar os armários do ateliê e as pastas do computador também. Durante a elaboração desse ensaio, a tarefa mais árdua foi, sem dúvida alguma, deixar vir as qualidades dos documentos, sem projetar idéias prévias sobre eles. Para minha surpresa, encontrei elementos-chave do meu trabalho que ainda não se faziam claros para mim, tais como a presença constante de anotações, tramas diárias alastradas que aderem superfícies diversas. Poderia dizer agora que a imagem do bar coberto de texto é muito mais do que a fotografia de um bar coberto de texto. É uma espécie de síntese, tão cara a mim que sou de natureza analítica. Algo para ser repensado, desenvolvido e revisitado diariamente, como um importante indício para falar de minha produção.
Sobre a Autora
Mestranda em História, Teoria e Crítica, PPGAV – IA/UFRGS com apoio da CAPES. Realizou seu Bacharelado em Artes Plásticas, Hab. Desenho – IA/UFRGS e é artista integrante do Atelier Subterrânea.
1 Ensaio produzido para a disciplina Documentos de Trabalho, ministrada pelo Prof. Dr. Flávio Gonçalves, durante o mestrado no PPGAV- IA/UFRGS, sob orientação da Profa. Dra Mônica Zielisnky.
2 Cf. José Saramago. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.1.
3 O termo "documentos de trabalho" é conceituado pelo Prof. Dr. Flávio Gonçalves.. Segundo o pesquisador, esses documentos podem ter origens diversas, tais como: as coleções de objetos e de imagens do artista, o próprio processo de sua obra, os projetos (realizados ou não), os trabalhos que servem de referência ao artista ou então suas lembranças marcantes.
4 Cf. RILKE apud SALLES In Gesto inacabado: Processo de Criação Artística. São Paulo: Anna Blume, 2004, p.84.
5 Confira as imagens dos trabalhos em meu portfólio virtual: www.flickr.com/lilianmaus