Panorama 

Qual o lugar da crítica hoje?

Equipe Panorama Crítico

A “crise” da crítica é o “lugar comum” nos debates sobre o seu papel e a sua legitimação, hoje, perante a arte contemporânea. A situação pode ser percebida tanto nas galerias e nas exposições, como nas bienais e suas curadorias. Tal tecla, batida tantas vezes nas conversas e discussões entre teóricos, curadores, artistas, estudantes e público parece ser o mais conveniente: assume-se uma posição (crítica, mas geralmente não ativa) que mais se torna defensiva e/ou ausente, quase como se mantendo a crise para poder seguir falando dela. Tratar-se-ia de um mote facilitador, poderíamos arriscar a dizer, que não requereria envolvimento por parte dos atores participantes do campo artístico, salvo algumas raras exceções, sobre o debate crítico e o seu papel frente às artes visuais perante a sociedade, atualmente.


Um dos motivos desta “crise”, conforme pode ser observado, por exemplo, em entrevistas e textos teóricos, congressos e seminários sobre a arte, hoje, é resultado invariavelmente de uma ausência praticamente total de veículos que se dediquem ao tema, especificamente, e de espaços na mídia de grande massa para o exercício da construção do pensamento crítico sobre arte. Outro fator, sempre mencionado por essas mesmas vozes, é a diferenciação e a desconstrução que a arte obteve em relação aos caminhos que ela mesma percorreu até meados da década de 1970, tornando bastante, ou muito, “enevoadas” as possibilidades de criação de juízo – que até então se sustentavam como um modo de proceder na escolha de obras e de artistas para exposições, salões e bienais. Mesmo que esse juízo estivesse contaminado por outros fatores “extra qualitativos”, inclusive, era ele ainda uma forma vigente de seleção e escolha, mesmo que se defasando em relação à produção da época. Hoje, com a produção artística repleta de referências das mais diversas áreas de atuação e conhecimento a crítica acabou por perder seu papel de referencial (ou referenciador). Além disso, a tomada da palavra pelo artista mudou seu discurso sobre o trabalho, transformando assim a relação com o fazer crítico, o que acabou por indicar novas possibilidades para a crítica. Fato que por vezes leva a certo tipo de acanha- mento tanto para quem produz arte quanto para quem produz a crítica.


Entretanto, o que surgiu e se consolidou, dentro dessa situação, foi o jornalismo cultural informativo. Esta modalidade, abrigada nas mídias de massa, substituiu   e tomou o espaço da crítica em veículos de grande distribuição, que passaram a oferecer ‘serviço’ sob a cartola ainda de ‘crítica’. Porém, não haveria como ser uma mera substituição de peças (sem que se alterasse a sua função), na medida em que jornalismo cultural e crítica são áreas que, embora possam ocorrer paralelamente, abrigam critérios diferentes na sua constituição. Ainda que o jornalismo tenha o seu papel na construção  de um ponto de vista interpretativo sobre a realidade  (o que inclui a arte) e da veiculação (como divulgação) da produção artística, através da grande mídia que é, a problemática que este jornalismo traz é a falta de critérios para a definição, junto do grande público leitor, de questões e indagações que a arte contemporânea traz. Ou seja; não há como negar as lacunas deixadas por um tipo de veiculação de informação que, pelo porte que possui um jornal de ampla circulação, parece que ‘de- veria’ oferecer, a um contento mínimo, uma produção crítica. Ou seria ignorar a responsabilidade social que solicita sua posição dentro da sociedade, que inegavelmente incluí a prática do exercício crítico profissional no que toca o setor cultural.


Na outra ponta, temos a crítica de arte voltada para si mesma, dentro das instituições, escolas e academias, principalmente. O que também não haveria como negar é que esta crítica seja formulada, muitas vezes, com um propósito praticamente único: servir apenas à manutenção de padrões que uma instituição exige. Não se coloca em xeque, todavia, a existência de tais padrões, evidentemente necessários para o aprimoramento da pesquisa teórica: não seriam eles a causa, exclusivamente, para o problema da ausência da crítica. Entretanto, este não é, definitivamente, um tipo de texto que tenha por destino o grande público, cujo acesso à arte é o que se espera (e se deseja, sim) que ainda seja possível. Ou seja; trata-se de uma distância dupla a que se estabelece entre público e produção artística (tomando-se a priori que seria o texto crítico o encarregado desta aproximação): a ausência de crítica em publicações de fácil acesso, e a hermeticidade dos textos em publicações específicas (que já são de difícil acesso).


Diante dos problemas observados, entre outros, a Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), criada em 1949, sediada em São Paulo, é (ou deveria ser) peça fundamental na difusão da produção intelectual volta- da às artes visuais/plásticas no Brasil. Contudo, não é o que ocorre. Juntamente com a decadência da crítica de arte nos moldes anteriores, a ABCA teve o seu papel bastante reduzido ao longo das últimas décadas. É possível que uma provável causa desta redução se deva às transformações que o mercado e o sistema de artes sofreram nos últimos anos. Modificações que o campo artístico teve dificuldades em acompanhar, já que a quebra de certos paradigmas (como os de critérios de juízo estético, por exemplo) ocorreu de forma abrupta. Neste contexto, todavia, a ABCA tenta se revitalizar. Nos últimos anos, a Associação tem realizado palestras e seminários, que se limitam, porém, aos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, principal corredor do sistema artístico brasileiro; além de manter um jornal trimestral dentro da área de crítica de arte, que, infelizmente, circula apenas entre os sócios. Atividades, de qualquer modo, que não socorrem a falta de espaço crítico, e acabam por passar a impressão de que a associação opera somente para a referencialização dos profissionais e legitimação a atividade da crítica de arte.


As implicações das atividades dentro de um campo que, já alargado, poderíamos chamar de crítico, englobaria ainda, hoje, outro ponto importante: o marketing cultural. Esta ‘área’ surgiu para suplantar a dependência que os órgãos, associações, coletivos e artistas, entre outros, têm com o estado, principal fonte fomentadora da produção artística do séc. XX. As instituições privadas, nos últimos anos, na maioria das vezes, através de leis de incentivo, vêm investindo pesado na produção de exposições, salões, catálogos, seminários e publicações. Estas leis são importantes e necessárias, já que a iniciativa privada jamais investiria em algo sem que houvesse algum tipo de retorno e compensação, sendo ela financeira e/ou midiática. Porém, este mesmo fator se apresenta como preocupante, não somente para a crítica, mas para a produção cultural como um todo, pois acaba existindo, por parte do Estado, uma ineficácia no fomento a área cultural. Diante deste panorama sombrio, na falta de posicionamento frente à produção cultural, o Estado abdicou de seu papel de promotor das discussões culturais, e acabou privatizando a cultura de modo não muito claro e transparente.


Evidentemente que uma solução – na medida em que se encara realmente tal contexto como um problema – não se encontra apenas por se levantar algumas características do estado problemático. No entanto, manter o tema na pauta pode ser uma tentativa de se entender sua complexidade até que atacá-lo passe a ser uma questão que não requeira tanto esforço – como é o caso de quando não   se tem o costume de praticar algo com frequência. Assim, um tipo de proposta, ainda que de eficiência não assegurada, possa ser o de seguir tentando formular perguntas para encarar o objeto. Se nosso objeto é a crítica de arte, ele que miramos quando insistentemente queremos saber como fazer com que esta crítica – que tem como papel oferecer diferentes possibilidades de discussão diante da pluralidade do campo artístico e suas relações com a cultura – ainda mantenha a possibilidade de formação de público. Qual o papel da crítica em um mundo “hiper midiático”? Como configurar um debate crítico e selecionar seus critérios numa época de validação total? A procura das respostas, quem sabe, já poderia ir se constituindo como indícios de uma produção crítica; mas esta ainda é a tarefa a se assumir, quotidiana e livremente.

1. Alexandre Nicolodi, André Pares e Denis Nicola

Panorama Crítico Editora e Comércio de Publicações Ltda. CNPJ 10.582.737/0001-13 - Brasil

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