Panorama 

Brevíssimos apontamentos sobre crítica de arte, mídia e cultura contemporânea.

Paula Ramos

Falar da ausência de crítica no Brasil, sobretudo no que tange às artes visuais, transformou-se em verdadeiro clichê. Há pelo menos 30 anos este assunto é corrente no meio e, na esteira dele, como também não poderia deixar de ser, a tão propalada “crise da arte”. Ambos os temas dão “pano paras as mangas”, como indica a expressão popular, e não é meu objetivo, neste rápido texto, discuti-los. Entretanto, permito-me fazer algumas breves reflexões sobre o morno, para não dizer ausente panorama crítico na mídia contemporânea. Para tanto, retomo algumas percepções gerais sobre o papel comumente atribuído à crítica.

Mônica Zielinsky nos lembra que, quando a crítica moderna surge, com Diderot, no século XVIII, os visitantes dos salões de arte e potenciais compradores das obras buscavam nela um amparo para as suas escolhas. A crítica de arte era, portanto, atividade de um especialista, que determinava a circulação pública das obras, estabelecendo as relações entre a produção artística e o espectador/colecionador (ZIELINSKY, 2006). Por outro lado, na tradição em que se fundamenta, o trabalho desse mesmo especialista funcionaria, como define Jacques Leenhardt, de modo semelhante a uma pedagogia da sensibilidade. Aprendemos a ler e a escrever, mas não a olhar. E o crítico de arte sabe, ou deveria saber, apreciar cores, formas e linhas. E ele também deveria encontrar nessas mesmas cores, formas e linhas um significado especial e saber comunicá-lo, por meio da linguagem verbal. Dessa forma, o efeito visual seria acessível a todos, por meio do texto crítico, uma espécie de escola do olhar (LEENHARDT, 2000).


Esse papel de mediação, de ponte, manteve-se por muito tempo calcado na concepção generalista de uma capacidade desse especialista, digamos assim, de discernir, no universo das produções culturais – e, pontualmente, no das artes visuais –, as de grande qualidade. Mas, se os acertos da crítica acabam se diluindo no consenso comum, os erros são muitos, célebres e para sempre lembrados, vide o antológico episódio envolvendo a primeira exposição dos impressionistas, em 1874... A minha memória falha neste momento, mas inclusive alguém já escreveu que residiria aí o gérmen da paralisia da crítica na contemporaneidade: diante de uma avalanche de produções muitas vezes desprovidas de sentido, ancoradas na banalidade, e com receio não somente de errar, mas de passar à história como o crítico que não teve sensibilidade – olho – discernimento ou qualquer outra coisa que o valha, muitos teriam deixado de fazer textos mais analíticos, mais comentados, mais críticos, na sua essência.


Os “motivos” da neutralização da crítica, de um lado, e do raro espaço dedicado a ela nos meios de comunicação social, de outro, podem ser vários: desde as linhas editoriais adotadas pelas empresas de comunicação, passando pelo tamanho cada vez mais enxuto dos “cadernos de cultura”, bem como pelo despreparo dos jornalistas e desinteresse do público, entre muitos outros.
Sendo, ou não, resultado dessa conjuntura, o quadro geral da crítica no Brasil todos conhecemos: no lugar da reflexão, o texto de serviço, indicando aberturas de exposições, horários de funcionamento, patrocinadores, quem fez o quê; no lugar da reflexão, a efemeridade da notícia; no lugar da reflexão, a coluna social, com direito a farto material fotográfico reproduzindo os sorrisos dos convivas durante o vernissage...


É evidente que há exceções a essa fórmula que parece ter assumido a condição de regra, mas o que temos vivenciado nos últimos anos é uma perversa transformação dos espaços jornalísticos tradicionalmente reservados aos assuntos “culturais e artísticos”. Tal território foi tomado pela volatilidade e pelo extraordinário, num fenômeno que ultrapassa o campo da comunicação, mas que, ao mesmo tempo, é potencializado nele. Ora, provavelmente nunca antes o homem viveu de modo tão espetaculoso e exibicionista. O estrondoso sucesso internacional dos reality shows e blogs, que midiatizam tudo, até mesmo os aspectos mais cotidianos e prosaicos da vida, reforça a percepção de que a sociedade contemporânea vive uma grande representação de si mesma. Nesse ambiente de aparências, de encenações e de fugacidades, a reflexão crítica, de qualquer ordem, é absolutamente necessária. Contudo, onde ela está?


A rede que se estabelece em torno das artes visuais não ficou imune a esse câmbio de valores e de comportamentos. E as bienais e megaexposições nos mostram, cada vez mais, como o campo artístico encontrou na estética videogame e na caprichada cenografia aliados imprescindíveis na sedução de novos e jovens públicos. Nisso, pelo menos em princípio, não residiria qualquer problema; a questão é que esses aspectos muitas vezes suplantam a própria produção artística, tornando-se “o” fato artístico e desviando a já frágil atenção do público. A obra, em muitas situações, é mera coadjuvante. Processo semelhante tem ocorrido em relação ao papel do curador. Quantas vezes a curadoria não se confunde com as obras... Isso porque talvez a curadoria tenha assumido outro posto: de verdadeira criação. É como se as obras estivessem ali para justificar uma ideia, um conceito, ou mesmo um delírio do curador. Poderíamos listar diversas exposições realizadas nos últimos anos, no Brasil, conhecidas, comentadas e fartamente citadas não necessariamente por causa dos artistas e das obras que delas participam, mas devido à proposta, ou ao nome do curador. Curador que, diga-se de passagem, quase sempre emerge do universo da crítica (quando ele não é um artista que, curiosamente, também participa da exposição, e em destaque! Mas esse já é assunto para um outro texto...). Trata-se, de fato, de uma nova função, articulada à lógica institucional das artes visuais na contemporaneidade e que difere daquela do crítico de antigamente, respaldado no discurso, na mediação.


Nesse quadro, o curador muitas vezes se lança, como aponta Fernando Cocchiarale, a produzir questões quase sempre extraestéticas, temáticas, que norteiem as exposições, que lhes emprestem sentido, ainda que provisório (COCCHIARALE, 2006). E aí podem surgir tanto propostas interessantes, instigantes e pontuais, como constrangedoras falácias, verdadeiros “sambas do crioulo doido”, sem contar os atentados visuais e intelectuais. Uma vez mais, esse livre trânsito de personagens e funções não traria grandes consequências se houvesse, efetivamente, crítica. Todavia, como os atores são reduzidos, há não somente uma sobreposição de atuações, como uma espécie de protecionismo entre os pares. O resultado é que não se diz, não se escreve e não se comenta nada, até para preservar o colega e, também, porque nunca se sabe que novo papel ele poderá assumir no campo! E os interesses pessoais, nesse sentido, podem falar mais alto. Esse aspecto nebuloso por trás da falta de crítica nos jornais e revistas indica que tal dificuldade não decorre, apenas, de uma falta de interesse do público ou das empresas de comunicação. Pior: ela é endêmica. Essa mesma linha de pensamento nos leva a refletir sobre o texto crítico produzido para livros ou catálogos de exposições. Aliás, seria lícito chamá-lo de crítico? A dúvida se justifica quando pensamos que, ao ser convidado e pago a escrever, o profissional provavelmente não fará um artigo ou ensaio de caráter realmente crítico, mas sim de apresentação, de contextualização e que debata determinados aspectos da obra do artista, os que ele julgar mais apropriados. Como, nos últimos tempos – inclusive devido aos investimentos em cultura, decorrentes das leis de incentivo fiscal –, tem havido uma expressiva produção editorial voltada a esse segmento, somos convidados a acreditar que a crítica de arte não desvaneceu e que, pelo contrário, está até mais fortalecida!!! O que não faz esse incrível mundo de aparências!!!


As híbridas e polêmicas relações entre curadoria, crítica, artistas, instituições, mercado e, sim, público, têm fomentado profícuos debates, sobretudo no meio acadêmico. Entre tantos, porque muitas coisas mudaram, a começar pelo próprio conceito de arte... Nesse cenário em constante ebulição e carente de espaços de discussão, é admirável que um grupo de estudantes¹ tenha se organizado e desenvolvido, de modo corajoso e independente, este fórum público de diálogo em torno da arte contemporânea. Assuntos e temas para discutir, como sabemos, não faltam...

 

1. A idéia partiu de Alexandre Nicolodi e Denis Nicola, do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mobilizados, de um lado, pelas querelas e polêmicas próprias do campo e, de outro, pelo total desconhecimento do que acontece em outras instituições de ensino superior na área de artes, e mesmo em cidades vizinhas a Porto Alegre (RS), Alexandre e Denis resolveram criar um site, este site. A proposta surgiu em abril de 2008 e, com a parceria dos colegas Gabriel Gageiro, Letícia Lampert, e André Pares em pouco tempo PANORAMA CRÍTICO ganhou forma.

Panorama Crítico Editora e Comércio de Publicações Ltda. CNPJ 10.582.737/0001-13 - Brasil

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