Faróis do Rio Grande do Sul: Um registro histórico e fotográfico

Claudio Tarta

A necessidade de expansão da navegação e a incessante luta do homem contra a adversidade do mar impulsionaram a construção dos faróis há mais de 2 mil anos. Ao longo do tempo, milhares foram edificados e, assim, exerceram seu poder, mesmo que, inicialmente, limitado – devido ao sistema de iluminação de reflexão da luz por espelhos a partir de uma chama de pequena intensidade –, de iluminar os caminhos e os perigos aos navegadores. Somente no início do século 19, com a introdução das poderosas lentes Fresnel, que aumentaram significativamente a potência de iluminação dos faróis, que esses auxílios tornaram-se totalmente confiáveis. A luz, assim, assumiu o protagonismo na segurança da navegação, sinalizando efetivamente a costa, com seus obstáculos e riscos à navegação, e o acesso aos portos. A “fase de ouro” dos faróis, em que estes desempenharam o papel hegemônico na segurança à navegação, estendeu-se por mais de um século, incorporando, mais tarde, os avanços da energia elétrica e dos dispositivos luminosos mais potentes, em substituição às chamas a querosene.

 

Este projeto aborda a iluminação das rotas náuticas costeiras e lacustres do Rio Grande do Sul, em seus aspectos históricos, artísticos e humanísticos, e resgata o seu papel como obra de infraestrutura, que permitiu um grande impulso no desenvolvimento econômico regional. O extenso registro fotográfico, com enfoque nos seus aspectos artísticos e paisagísticos, e dos detalhes do interior de sua estrutura e dos dispositivos

seculares de iluminação demonstra, de maneira inédita em nossa literatura, a preocupação com uma obra completa e que contribua para a preservação desses patrimônios históricos e arquiteturais. Os aspectos humanísticos da obra, envolvendo a mítica figura do faroleiro, são abordados a partir de uma série de entrevistas com o último descendente de uma secular família que faz parte da história do Rio Grande do Sul e que gerou sucessivas gerações de faroleiros – os Pereira de Lima –, o que possibilitou o resgate da memória da construção e funcionamento dos primeiros faróis no Estado, a descrição da rotina de manutenção das chamas a querosene e de todas as peculiaridades da atividade.

No Estado do Rio Grande do Sul, a sinalização náutica remonta à época da Província, onde foi construído, no início do século 19, o primórdio do seu primeiro farol, o farol Barra – através de um amontoado de pedras com uma fogueira em seu topo –, sinalizando a instável e traiçoeira barra do Rio Grande, no encontro das águas da laguna dos Patos com o Oceano Atlântico, local estratégico de acesso ao interior da Província. Esse fato representou um grande avanço em uma época em que não havia estradas e o acesso ao interior da Província, aí incluindo a própria Capital, à margem do lago Guaíba, era feito somente através da navegação por uma extensa hidrovia na laguna dos Patos e seus afluentes. Além das precárias condições de acesso seguro à laguna dos Patos, o litoral do extremo sul do Brasil, com suas peculiaridades geográficas e sob influência de grandes variações climáticas, castigava muito os que por ele navegaram. Eram grandes os desafios da navegação em embarcações a vela ou com motores de limitada potência, e sem os modernos sistemas eletrônicos de posicionamento, até alcançar a barra do Rio Grande. A fascinante história dessa época nos leva a um passado em que notícias de naufrágios eram bastante comuns, tanto quanto “a presença de corpos e destroços de embarcações na beira da praia”. O número de faróis ao longo dos seus quase 700 quilômetros de extensão é um sinal disto.

 

A pesquisa histórica foi realizada através da busca de dados em publicações especializadas, na Biblioteca Nacional Digital, nas redações e arquivos jornalísticos e, também, através de um extenso trabalho de campo com os envolvidos diretamente com a sinalização: os faroleiros. Para isto, foi realizada uma série de entrevistas com Sanger Nelson de Lima – suboficial da Armada Brasileira, com mais de 30 anos de serviço em faróis e último descendente em atividade de uma família com três gerações de faroleiros desde 1910 – coletando dados de extrema relevância e detalhes do histórico da sinalização náutica. De seu arquivo pessoal, também foram extraídos e incluídos na publicação, documentos e registros fotográficos inéditos. A rotina da vida dos faroleiros e de suas famílias é descrita em detalhes. Entendendo como elementos indissociáveis nesta narrativa, a ri- queza dos aspectos históricos foi complementada por um extenso registro fotográfico do interior e exterior dos faróis através de di- versas incursões por via terrestre e lacustre. O acesso às instalações foi autorizado pelo SSN-5 (Serviço de Sinalização Náutica do Sul), responsável pela manutenção de toda a sinalização náutica dos três Estados do sul do Brasil. Acredita-se que a obra consolidada de dados históricos, imagens e resgate da tradição familiar da atividade dos faroleiros, será uma importante referência de pesquisa aos interessados no assunto, como o público em geral, estudantes, historiadores e artistas, entre outros.

Em 2017 o projeto para publicação de Faróis do Rio Grande do Sul: Um registro histórico e fotográfico foi aprovado pelo Ministério da Cultura para captação de recursos via lei Rouanet. Para apoiar o projeto entre em contato.

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